quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Balada diferente


Pois então, acabou-se a Balada Literária, evento anual orquestrado, realizado, difundido e concretizado pelo já conhecido "Joãozinho 30 da Literatura", Marcelino Freire. Da balada em si, só comparecer no domingo na Livraria da Vila (na Madalena) para ver a sempre linda Lygia Fagundes Telles, uma discussão sobre literatura e fomento e depois, no espaço b_arco Lira Neto [biógrafo da Maysa] e Fernando Morais [biógrafo que dispensa apresentação] batendo um delicioso papo. Não deu pra ficar para as Porcas Borboletas, mas mesmo assim foi divertidíssimo, pois também encontrei o engraçadíssimo Sidney Rocha, autor de Matriuska (livro do qual falarei em breve aqui). E ontem teve a Ressaca Literária, evento que sempre ocorre dias depois da Balada, os dias em que há um fechamento e uma personalidade bate um papo com o anfitrião da Balada. Ontem, Italo Moriconi, responsável pela coletânea Os Cem Melhores Contos do Século, bateu esse papo com o Marcelino, explicando como foi o processo de escolha desses contos, como hoje ele é conhecido por essa antologia e o que a literatura brasileiro hoje precisa. Um dos pontos levantados pelo Marcelino foi que o livro organizado por Moriconi deu um impulso grande ao conto, gênero que no Brasil, na época de seu lançamento (ano 2000), estava bastante esquecido pelo público. Tirando o fato de algumas pessoas da plateia tentarem brilhar mais que o entrevistado, a primeira Ressaca Literária desse ano foi uma delícia, ainda mais estando ao lado de três queridos: Nanete Neves, Laura Fuentes e Claudio Brittes. E domingão tem mais: Rodrigo Lacerda conversa às 17h00 com João Ubaldo Ribeiro no SESC Pinheiros, na última ressaca da Balada Literária. Depois disso, só em 2010, na próxima Balada.

PS.: Vou tentar achar o endereço do Flickr da Balada e ponho aqui em breve.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Não sou de pieguices...


... mas esse não é o sobrinho mais lindo que eu poderia ter?
Posted by Picasa

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sumiço

Quando fico muito tempo sem vir aqui me sinto estranho. Um pouco em dívida com minha escrita. Pois ganho a vida escrevendo pelos outros, traduzindo tecnicidades infinitas, tão longe do literariamente desejado. E c'est la vie (en rose) que levo, entremeios e entretantos, buscando me alimentar. Por exemplo, um dos últimos banquetes que tive, encabeçando a lista de melhores livros de 2009 para mim foi o Hotel Novo Mundo (Ed. 34), da Ivana Arruda Leite. Texto enxuto, direto, lancinante. Poderia ter 300, 500 páginas, mas bastaram cento e poucas para ficar redondinho. Há gente que diz que o texto é fraco perto do que a Ivana pode fazer com contos. Mas são estilos diferentes, enfoques diversos. Como diz Cortázar, o conto ganha pelo nocaute, o romance por pontos, e isso Hotel Novo Mundo faz muito bem. A história de Renata, paulistana que mora no Rio há anos e foge de sua vida de riqueza e glamour para recomeçar sua vida na boca do lixo paulistana, num hotel da região da Luz, conhecida por antigamente abrigar a cracolândia, é contada em sete dias. Cada capítulo, um dia da semana, onde se sabe mais de Renata e das personagens que a cercam: Divino, o carioca que é transferido para a filial do banco em São Paulo, Genésia e Leão, donos do hotel, Cesar, o ex-marido de Renata, Margô, ex-mulher de Cesar, Zema, pai Lauro, Ritinha... são pinceladas em cores vivas de muitas pessoas que conhecemos, de gente com quem convivemos ou ao menos já vimos. Cada um tranquilamente daria mais um pequeno romance, o que prova que talvez o texto poderia ter mais páginas. Mas a história é contada com tamanha paixão que a gente se satisfaz com o que ela dá, deixando a imaginação preencher gostosamente as lacunas que talvez a gente ache, fuçando, as entrelinhas do texto. Texto ágil, vibrante, colorido. Uma verdadeira delícia, mesmo. Vale a pena!
Quem quiser conhecer mais sobre a Ivana, é só entrar no http://doidivana.wordpress.com/, o blogue da moça.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Minha primeira entrevista

Queridis leitoris,
Finalmente saiu minha entrevista da Rádio UNESP, no programa Perfil Literário. O generoso entrevistador Oscar D'Ambrósio leva ao seu programa personalidades da literatura e escritores iniciantes (como esse que vos escreve) para montar mesmo um panorama da literatura brasileira hoje. Para ouvir a entrevistinha (na qual eu estava bastante nervoso) clique aqui. Espero que gostem.

A nudez IX

Como em todo o trabalho, no início é complicado se acostumar ao cotidiano. No dia seguinte me demiti do trabalho da repartição, consegui convencer minha mãe que aos 36 anos eu precisava sair de casa e ter meu espaço e comecei meu trabalho no bordel. Consigo gorjetas generosas e com elas consigo pagar um pequeno apartamento no centro, próximo do meu novo local de trabalho. E todo o dia, às quatro e trinta da manhã, pego meu maço de cigarros, minha caixa de fósforo e relembro daquela mulher nua, aquele manequim, pelo qual me apaixonei perdidamente.

A nudez VII

"Você tem um fósforo?", perguntei, "não há mais táxi, não há mais nada. Então, ao menos, vou fumar. Desde às quatro e meia..."
"Quer ganhar uns trocados hoje?", disse o homem da cicatriz, acendendo meu cigarro com um isqueiro dourado. "Amanhã você vai para casa. Entre, vamos cuidar dessa boca e eu te arrumo uma roupa limpa".
Me vi na situação mais insólita da minha vida: o gigantesco segurança do bordel limpava minha boca um algodãozinho com água e sal, me dando a receita daquilo que deveria fazer para não piorar.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Proposta de Mudança da LDA - Lei dos Direitos Autorais




Denise Bottmann, autora do blogue não gosto de plágio já comentada aqui, luta para que se extingua a safadeza do plágio em tradução, perpetrado por editoras duvidosas, mas não apenas por elas, como também por conceituadas casas de publicação, o que torna o trabalho que Denise arduamente desenvolve pelo amor à nossa profissão mais importante.
Por isso, em virtude do congresso para a revisão da Lei do Direito Autoral, que ocorrer nos dias 9 e 10 de novembro, será apresentada uma proposta para a defesa de obras de tradução esgotadas e fora de circulação há mais de 20 anos, proposta essa publicada em:


Caso concorde com essa proposta, pode manifestar seu apoio no próprio blogue da Denise.
Encontre mais materiais sobre a reforma da LDA e demais assuntos correlatos em:

 
Obrigado Denise. E agradeço de antemão a todos que apóiam e respeitam o trabalho do tradutor.

A nudez VI

Derblablado, gritei babando sangue e algo parecido com um naco da minha língua. Percebi que não conseguia falar, o créc-créc dos dentes me incomodava. Cuspi, cuspi de novo, pedi desculpas e voltei a cuspir. Vi pela janela daquele sobrado o delegado e dois policiais que gargalhavam com mulheres em roupas sumárias no colo. Vi que não podia chamar a polícia. O leão-de-chácara sorria, cínico, e disse para eu ir embora.

A nudez V

Foram menos de cem metros até o bordel, cuja existência eu desconhecia. O leão-de-chácara tinha uma cicatriz que seguia do topo da testa até o lado do nariz. Me perguntou o que eu queria, perguntei se podia entrar e ele me perguntou a senha. Manter a calma foi sempre o que ouvi em toda a minha vida. Tentei argumentar. Depois entrar à força. Fui empurrado e caí feio. Bati a boca em um ferro que brotava da rua. A que ponto cheguei, perguntava eu, que acontece comigo? E a noite mal havia começado.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

A nudez IV

Como se passaram tantas horas com minhas mãos atreladas àquele homem? Olhei para trás, será que a ambulância me deixaria perto de casa? Não havia mais bonde, tampouco táxi. Nem mais ambulância na rua. Talvez não houvesse mais emprego e minhas coisas ficaram no escritório. No fim da rua, uma luz vermelha e uma movimentação. Não tinha muita escolha, a não ser ir até lá.

A nudez III

Abaixei para ver o que tinha o homem, o que doía? Quando percebi, pessoas se amontoavam, apontavam, murmuravam. Chamem uma ambulância!, gritei, chamem! Ele se agarrava ao meu braço e dizia "não me deixe morrer, não me deixe". Eu conversava, e conversava com aquele homem desesperado. As pessoas se dispersaram. Me desatei dos nós dos dedos do homem trêmulo quando ouvi a ambulância chegar. Levantei, bati a roupa e segui em direção do bar. Porém, já eram dez da noite.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A nudez II

Dali em diante vi que minha vida esquadrinhada, metódica, não seria a mesma. Quando abri a caixa de fósforos às quatro e trinta vi que só havia mais um palito. Precisaria de dois, como ficaria o cigarro da saída do trabalho? Segui até a esquina, ao bar, muito rápido, mas tropecei em algo que não identifiquei a primeira vista. Era um homem que se contorcia.

A nudez I

Todos os dias saio do prédio às quatro e trinta, às quatro e trinta pego minha carteira de cigarros, minha caixa de fósforos e saio. Apesar de ser permitido fumar na repartição, aproveito para ver a rua e os carros e as pessoas naquele desatento desfile cotidiano. Hoje, no mesmo horário, vi na vitrine da loja de roupas uma mulher nua. Nua na vitrine. Havia algo de errado com aquela mulher.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Algumas coisas se explicam, outras...


Hoje é meu aniversário. Acho que nunca comecei um texto aqui com uma frase tão plana, lisa. E ao mesmo tempo de significados tão intensos que fica difícil lê-la com imparcialidade. Pensa-se em parabéns e  talvez seja merecido, pois neste mundo de cabeça para baixo vence-se a cada dia.
Mas hoje é meu aniversário. E não é dia de escrever coisas tristes ou pensativas, mas de comemorar. Comemorar que há 30 anos um casal me escolheu para ser seu filho e apostou em mim todas as fichas. Que desde meu último aniversário acordei nos últimos 365 dias, levantei e fui cumprir minhas obrigações. Que curti esses dias com pessoas maravilhosas, que amo muito. Com as que estão bem pertinho. E com aquelas que estão longe. Que no meio desse caminho realizei um sonho e conheci a Terra dos Teutos. E lá conheci outras pessoas muito maravilhosas, me decepcionei com outras que mal conhecia, mas a vida continuou bela. Que voltei em segurança e vi o sol nascer na Costa do Marfim por uma janelinha bem pequena e chorei. Que nesse meio tempo traduzi um livro, diversas matérias de revistas e muita coisa chata, mas que me deixaram feliz pelo desafio aceito e cumprido. Que a cada dia 29 de outubro, desde 1966, comemora-se o dia nacional do livro o que, para alguém como eu, tem um significado mais que especial. Que meu primeiro presente, na véspera, foi exatamente um livro sobre tradução de uma pessoa realmente especial. Que hoje recebi uma ligação da minha avó no alto de seus 77 anos, linda e de cabelos branquinhos, me abençoando e desejando felicidades. E também um e-mail de uma família especial que me recebera com tanto carinho lá tão longe. E que completei três décadas com muita felicidade e orgulho de quem sou.
Por isso digo que hoje é meu aniversário. E o que se sente nesse dia não se explica. Nem se deve explicar...

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Desaforo I

Quando dei por mim, o espelho já estava estilhaçado. Os nós de meus dedos eram porcos-espinhos de plástico e vidro e nem eu sabia que tinha essa força, furei o armarinho vagabundo acertando um frasco de mertiolate que ardeu quando estourou entre o médio e o anular. Nunca havia esmurrado a cara de ninguém, resolvi fazê-lo na minha própria, no espelho, pois não aguentei meus olhos cínicos e um sorrisinho sarcástico no canto da boca como se me dissesse "você é um bosta". Depois de mijar e sentir o cheiro rançoso de cerveja velha subir nos vapores úricos, resolvi me encarar como nunca havia feito. Foram alguns segundos ou algumas horas, sei que consegui chegar bem perto do fundo de poço que são meus olhos. Lamacentos, lodosos, imundos. Não aguentei a testa franzida e a sobrancelha altinha fazendo firulas, trêmula como se gargalhasse do seu dono. "Idiota" era o que eu ouvia do fundo dos meus olhos. Mas o que me fez socar meu próprio nariz no espelho não foi a minha zombaria. Foi pelo que eu sabia estar além de meus olhos...

domingo, 25 de outubro de 2009

El Fuego en SESC

Hoje fui, atrasado por uma aula, à oficina de Literatura na Web, com a querida Andréa del Fuego, no SESC Vila Mariana. Não conhecia o prédio da rua Pelotas, ali perto do metrô Ana Rosa, fiquei mesmo surpreso. No laboratório de Internet Livre, entre fotos e criação de blogues, a literatura correu de boca a boca entre os participantes. Imagens, discussões, risos e opiniões fizeram com que a tarde, que acabaria às 18h00, se estendesse uns 15 minutos no SESC e um pouco mais depois. Entre os exercícios de observação de fotos e criação, saíram dois microcontos. Vejam só: 


SOBRE A CHUVA
despedida
Naquele dia que despencava ela foi. Com uma mala marrom desengonçada e as crianças arrastadas pelas mãos. Caminharam pela areia, sem olhar para trás e eu, do trailer, via os três cada vez mais distantes. João, o menor, tropeçou e seu caminhão, presente do natal passado, foi ao chão, quebrando carroceria, soltando rodas e cacos de plástico. Apenas nesse momento ele olhou para trás.


SOBRE A DOR
da vida
Você nunca vai saber quanto eu poderia ser sua. Te vendo meu corpo e isso basta.

Dia 31 tem mais. Até lá...

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Lançamento - "LTI" - A Linguagem do Terceiro Reich"

Quem se interessa pela Segunda Guerra não pode perder esse lançamento em São Paulo, no Instituto Goethe (que fica na rua Lisboa). LTI - A linguagem do Terceiro Reich, de Victor Klempner, foi traduzido por uma colega da turma do curso de tradução de alemão, Miriam Oelsner. Vejam a baixo o convitinho virtual. Como de costume, é só clicar e ele aumenta:


Vejo vocês lá.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lançamento: Axis mundi


O querido Nelson de Oliveira está sempre nas paradas todas. Na próxima sexta-feira na Livraria da Vila da Lorena, às 19h00 e no sábado às 15h00 na Livraria Pantemporâneo ele lançará o livro Axis Mundi: o jogo de forças na lírica portuguesa contemporânea (Ateliê Editorial). Durante cinco anos Nelson conviveu com alguns poetas portugueses e dessa amizade surgiu o livro para deleite de quem já conhece algo dos patrícios, como Gonçalo M. Tavarez e Adília Lopes (para não citar o maravilhoso e conhecidíssimo Fernando, o Pessoa).
Com certeza, Nelson, não seremos apenas nós para discutir poesia e literatura no vazio da sala. Espero vocês lá...

Vejam o convitinho (clique nele para aumentar e ver os endereços):


sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Às vezes a gente se impressiona


Há pouco acabei de ler um livrinho chamado A vida é sempre assim às vezes (Editora Arte Escrita), do jornalista e professor Wladyr Nader. Não se guie pela palavra livrinho, pois a usei somente porque é um livro de dimensões pequenas, mas de conteúdo impressionante. O mote da história não surpreende tanto: um desempregado nas décadas de 60/70, casado e com duas filhas, consegue um emprego numa fundação que tem como objetivo articular frentes do partido da posição na época para não perder terreno nesses Brasis desde sempre desencantados. Porém, surge uma trama de amores platônicos, intrigas políticas com um pano de fundo bastante comentado, mas nunca aprofundado, que é nossa época de chumbo. No livro tudo é velado, uma visão provavelmente de quem viu de perto e sofreu com a repressão da ditadura.
Capítulos curtíssimos dão um ritmo surpreendente à história aparentemente comum e a visão de mundo daquela personagem é agudíssima, revelando a máscara que ele também carregava na vida, de homem humilde e sem muita instrução. Funcionário exemplar para a fundação, visado por muitos, mas que não se entrega, apenas segue as ordens e garante o seu. A vida de verdade, corrompida de verdade até as últimas consequências.
E a sucessão de fatos históricos que entremeiam a narrativa a transformam em um retrato de uma época tão marcante para todos nós, até mesmo quando são relatos do cotidiano de uma família de classe média baixa daquela época. Luis batalha o pão, com ajuda de Rosário e sua venda de perfumes e a felicidade da família de margarina às vezes surge para mostrar que apesar de cruel, a vida às vezes passa mel em nossos lábios para que possamos continuar a batalha. E depois de acompanhar como Luis ultrapassa os percalços de uma vida de verdades rasgadas e mentiras necessárias, a narrativa cai em um vórtice de confusões e desencontros que fortalece o título dessa resenha: às vezes a gente se impressiona. Vale a pena.


PS.: O livro é distribuído pela Expressão Popular, na rua Abolição, 197, Centro, São Paulo. Telefone: 3105-9500. 

domingo, 11 de outubro de 2009

O delicado essencial

Por vezes o céu se rasga destemperado, deixando encharcados os corpos em marcha e as ruas e os carros. Rasga-se como um imenso chuveiro frio sobre os ânimos desentendidos da cidade e faz uma bruma leve subir do asfalto morno, uma névoa fina que se desfaz nas rodas dos automóveis apressados. O rapaz olha para os lados, desesperançado com seus cabelos escorrendo a água daquela chuvarada surpresa, a camisa cola incômoda em seu peito e ele chora algo que se lembra naquele instante. Um corpo quente e firme numa cama desarrumada com um gosto que será difícil esquecer. Acaba de sair do metrô, quase fugido, e encara aquela grande avenida, com cemitério e hospitais, e não sabe para onde ir, por onde seguir com o peso de sua roupa molhada e de seus olhos inchados. Sente nas suas mãos ainda o hálito morno antes do beijo e os lábios e novamente o ar quente do ofegar. Foi especial, naquele tempo que durou, não sabia quanto, um mês, dez anos, quinze minutos, não importa, pois ninguém esperava que acabasse. Por mais que soubesse que tudo, infelizmente tudo na vida tem um fim, nunca soubera naquele tempo o que foi início ou meio. Pois sempre houve aquela vontade de uma hora, um dia, uma semana a mais. Um desejo que não arrefecerá com a chuva que se lança incansável sobre o rosto do rapaz e mancha sua visão com pequenos pingos reluzentes entre os cílios tão compridos. O sinal de trânsito abre, mas ele desiste de atravessar. Pois precisa voltar, nem que seja apenas para confirmar o último adeus.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Ovelhas



Sinto como a todo momento Eles tosquiam nosso cérebro, impondo para nós trabalhos iníquos como castigo por tentarmos pensar como seres independentes. Arrancam nossas peles sem o menor pudor e nos dão um trapo qualquer para enxugar a tristeza lacrimosa de quando vemos nossa inteligência atrofiar entre as orelhas.
Ovelhas.
Das quais se obtém o leite e a lã, deixando secas e nuas as pobres. Há coisa menos nobre que se aproveitar de uma situação para arrancar até o último e ainda por cima, quando de qualquer mostra de não subserviência, ser tomado por rebelde e arrebatado dos pensamentos de crescimento e melhora para o chão do trabalho mecânico, despudoradamente infeliz e sonífero?
Algo mudou, de uns tempos para cá. Algo ficou mais forte e aflorado e eu acho que é a vontade de voar. As asas, tantas vezes quebradas e consertadas, ainda são fortes o suficiente para um voo longínquo, para terras e segredos distantes, nos quais não há proibição descabida, mas apenas prevenção necessária, não existem tiranos inquisidores, mas mestres orientadores e, nem tão longe daqui, sinto o cheiro desse voo. Estou prestes a me jogar, mesmo que me escangalhe, me esmigalhe nas rochas duras no fundo da montanha e tenha que escalá-la novamente, pois agora eu tenho as ferramentas, tenho o que preciso para que a minha subida seja mais suave, menos dolorida.
Depois de tantos anos, se enxerga que não era dedicação, mas apenas uma escravidão velada. Depois de tanto tempo, vejo que dar um passo a mais significa ameaça, então você não é bem-vindo. Então, amigo, dispa-se e corra em direção da felicidade... enquanto é tempo.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Schnelles Gratulieren

Mesmo correndo tanto, com a vida a mil por hora, não poderia deixar de passar aqui e deixar meus parabéns a todos os tradutores pelo seu dia. Apesar das agruras do ofício e com a delícia dessa arte, não deixo de dizer que amo essa profissão e não me vejo em outra, ao menos não nos próximos 150 anos. Espero poder sempre compartilhar essa visão com todos os que estão ao meu lado e ser tão generoso com meus colegas como foram comigo nesses anos de profissão.

Gehen wir weiter! Go on! Vamos em frente.

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Página 43


Quando se morre na página 43 de um livro de duzentas páginas, naquele quinto de história que passa lentamente, uma sensação estranha toma quem lê. Putz, é um pensamento recorrente quando duas pessoas no livro se revezam ao cuidar do moribundo e selado está o destino dessas pessoas naquele momento. Se morresse na última página, talvez, esse vínculo não seria tão forte, mesmo que as personagens vivessem mais 100 anos após aquela morte. O laço estaria desfeito quando a página 200 fosse virada e o branco das duas, três páginas seguintes desse a certeza de que nada de mais impactante poderia acontecer para essas pessoas.
Mas na páginas 43 as coisas mudam de forma drástica. Nessas 43 páginas muito da vida dessas pessoas foi exposto, suas dores e temores, algumas alegrias e já sentimos que aquele moribundear faz parte do cenário. E a morte traz aquele arrepio da surpresa, por mais en passant que a notícia seja dada e por mais que a vida das personagens fosse, até aquele exato parágrafo, uma espera pela morte do doente. Quando chega a página 43, não importa como ela chegue, se instala uma tensão improvável e, em vez do alívio, recai sobre todos o pesar, a tristeza latente.
Assim, vamos nos preparar para a chegada da página 43. Talvez ela seja violenta, às vezes ela é tranquila, mas sempre haverá o despreparo para lidar com a sua vinda. Se passar da 43 e nada acontecer, agradeça ao autor da sua história de duzentas páginas e continue a espreita: ainda há 157 páginas por vir.

(Pensei em contar que romance estou lendo, mas vai que publiquem o tal no Brasil, terei estragado a surpresa da página 43.)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

A festa

Me lembro apenas dos raios de sol se esgueirando pelas pequenas imperfeições da porta mal colocada quando acordei amarrado frouxamente nos pés e nas mãos. Tamanha era minha fome que não tinha forças para me desvencilhar daqueles cordões encardidos que eles me colocaram no pulso e no tornozelo. Não vi seus rostos, era noite e usavam algo estranho no rosto, como uma pintura que os deixava com aspecto engraçado e eu riria se não estivesse tão apavorado com a violência: entra no carro, rápido, ouvia uma voz rouca e sentia algo pontiagudo nas minhas costas, entra rapaz, entra, era o que repetiam. Deles apenas ouvi que se eu precisasse de algo, era só puxar uma corda ao lado de mim com a boca que logo alguém viria. Puxei diversas vezes e tentei arrancar algo daquelas pessoas, mas nada deu certo. O silêncio era interrompido vez ou outra por tiros, não sabia onde eu estava, apenas tiros e crianças gritando e mulheres dando vozes de comando para as crianças, algo parecido com venha para dentro. Não entendia o idioma direito, havia três meses que estava ali. Apesar da minha aparência de local, não demorou muito para perceberem que na verdade eu não passava de um estrangeiro e, pior, um repórter estrangeiro mandando mensagens e imagens para o mundo do que acontecia naquelas paragens.
Quando acordei naquela manhã, eles festejavam. Não entendia tanta festa, afinal eu havia estudado tanto sobre o país e não me dizia nada aquele dia. Eu já estava em cárcere privado há uns dias, mas ninguém dava falta de mim, a reportagem era encomendada e eu fui sozinho para lá. Os gritos eram cada vez mais intensos e os tiros também. Eles dominavam tudo por ali, tudo era deles. Eu sempre ficava por dias sem dar notícias ao meu editor e ele bem sabia que não havia perigo de acontecer um sequestro ou coisa que o valha, porém sentia que algo estava estranho, como se eu estivesse na frente de um mar e ele estivesse se agitando cada vez mais até formar uma onda e me engolir, e engolir toda a costa, e os continentes e cobrir tudo, devastador. E a minha confirmação de que isso estava acontecendo foram os gritos, a festa e eles entrarem falando meu idioma, rindo e cantando naquele quartinho que cheirava mofo e areia.

"Agora começou" era o que eu ouvia daqueles homens, "não tem mais volta". E celebravam, cantando em seu idioma. Talvez em todo o mundo deles havia comemoração, talvez significasse que eu não tinha motivos para celebrar também. Pensei em meus irmãos. E na minha mãe. E em meu pai, que Deus o tenha. Tiraram meu capuz, fazia um calor imenso e o mormaço era visível entre o casario pobre que dava para a única janela daquele cubículo. Era um dia festivo, sim, mas eu não me lembrava. 

"Os dois foram ao chão, os dois". 
Eu não entendia, não fazia sentido. Um golpe militar, mas era tão poderoso o govenante dali que eu não podia acreditar. E se falavam em dois, certo que não era ele. Eu perguntava o que havia, pedia por água e comida, ele riam jogando um pouco de água nas minhas pernas e dizendo "logo traremos, depois que a festa acabar". Mas que festa, meu senhor, que festa. Por que me mantêm aqui nesse lugar, que fiz a vocês? Sabia de sua xenofobia e que não pensariam uma única vez em me degolar e mostrar em praça pública, como sempre foi feito naquele lugar. Por isso não forcei barra alguma. Num momento, um deles me disse, olhando para os meus olhos e pude reconhecer o motorista de táxi que sempre foi tão gentil comigo: 
"Senhor, vamos mostrar o motivo da nossa festa. E depois o senhor vai ser solto."

E trouxeram uma velha televisão. Quando ligaram, reconheci o âncora do jornal diário com um leve sorriso no rosto, dando uma notícia confusa. Gêmeos. Avião. Torres. Daí entendi que a festa apenas havia começado... 

[A todos os mortos de 11 de setembro de 2001 e a todos aqueles atingidos em oito anos de tristeza. Paz, sempre]
*Imagens: TV UOL

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Blogue e Literatura: Encontro na PUC

Hoje pela manhã rolou um bate papo com duas turmas de 1º ano do curso de jornalismo da PUC sobre blogues e produção literária. A convite do professor e jornalista Wladyr Nader (que também é escritor), Andréa del Fuego, Laura Fuentes e eu nos deparamos cerca de 30 alunos, uns mais ávidos por informações, outros cumprindo tabela de assistir aula, todos com o mesmo propósito: ouvir o que os escritores-blogueiros tinham a dizer. E foi bastante divertido e proveitoso esse encontro que também contou com a ajuda da profa. Polyana. Pudemos comentar um pouco sobre a produção em blogues e a produção fora deles, pois contávamos com uma escritora já experiente, uma jornalista de tarimba e eu, blogueiro inveterado e escritor diletante. Surgiram discussões bem bacanas, como o futuro dos blogues, sua confiabilidade, o que a mídia tradicional pode aguardar dessa enxurrada de blogues que nascem na blogosfera por dia, a mudança (muito bem notada pela Andréa) na cara do jornalismo com a possibilidade de qualquer cidadão ser seu próprio editor e falar o que bem entender em seu espaço, o blogue. No fim do bate-papo escolhemos entre os alunos que mais haviam participado da discussão ou os que mais ficaram antenados: Mariana e Julia. Mas isso não impede que esse livro circule pelos alunos. Espero que essa discussão tenha sido tão gostosa para vocês como foi para mim.


Agora vou esperar uma foto do encontro, que se não me engano uma das meninas tirou com o celular.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Alerta vermelho

Há um tempo observo calado a uma tendência cada vez maior em todas as instâncias da vida: a censura desde o grau que parece (e digo, apenas parece) inocente at? casos crassos. O que me faz escrever esse pequeno desabafo: a ameaça de um tal Diogo C. à querida Ivana Arruda Leite por conta de seu recém-lançado romance, Hotel Novo Mundo. Alega o cara que o romance tem o mesmo nome do estabelecimento que dá título ao livro de Ivana e desce a lenha (veja aqui no link).


Dá medo de reações assim. Claro, cada um pode dizer o que quiser, para isso que está aí liberdade de imprensa e expressão. Mas sabe lá o fulano se Ivana já falou com o hotel. Se fosse assim, muitas pessoas seriam processadas, entregues às autoridades ou simplesmente boicotadas por referências a outros autores, obras, marcas e afins. Idiotice, mas fundamentada no direito que às vezes as pessoas acham que tem de bater um carimbo ditatorial nas outras, nas obras alheias.


O fato de o Estadão estar proibido de falar verdades a El Bigodón, a Xuxa querendo acabar com o twitter (coitada...) e outras proibições, censuras e afins me deixam com medo (no BLABLABlogue há um texto sobre a censura do Roberto Carlos à biografia não autorizada do Rei feito pelo Marcelino Freire que é impagável). Foi uma época na qual não vivi, mas vi de bem perto suas consequências, essa da ditadura de 64. E não a desejo para ninguém no futuro...

A primeira leitura, entre muitas


David Toscana, escritor mexicano nascido em Monterrey, dá ao seu estilo ficcional o nome de "realismo desquiciado", ou realismo desvairado, e talvez seja esse mesmo o ponto alto de seu potencial criativo: os desvario, o absurdo real, o limite onde facilmente realidade, ficção e outros elementos se misturam para formar uma obra que impressiona. Ao menos foi assim que O último leitor (Casa da Palavra, 2005, Trad. Ana Pelegrino e Magali Pedro) me pegou nas suas 159 páginas áridas por paragens mexicanas que quase ninguém vê, como nosso sertão. Um romance ágil, de capítulos curtos e densos. A história de Lucio, o bibliotecário de Icamole, uma cidade onde nem a chuva chega, e de seu filho Remígio, quem primeiro dá as caras no livro, é contada com uma velocidade cinematrográfica, salvo certos pontos de reflexão no meio do caminho. A história acontece em meio à seca de meses na cidadezinha e começa quando Remígio vai até seu poço, o único que ainda resiste vertendo água naquelas cercanias, e se depara com uma surpresa: o corpo de uma menina que fora jogada lá dentro. Depois de retirada a garota, Remígio corre até Lucio para que ele o ajude a dar fim ao corpo. Lucio, claro, já liga a história da vida real a um romance de suas estantes e que não foi jogado no "inferno", um local onde os livros reprovados por serem ruins, usarem clichés e fórmulas prontas ou pela inverossimilhança são jogados com o carimbo "Censurado". A partir da descoberta da menina no poço, a vida de ambos será envolvida em uma sucessão de acontecimentos reais ou imaginários, pois a sombra dessa morte o tempo todo estará às voltas com outro vulto: o do desejo carnal. Para esses seres do meio da poeira desértica de onde antes era mar, os desejos mais primitivos são facilmente despertados, mais rudes e cruéis, mesmo em Lucio, o leitor "profissional" de Icamole. O místico e o cético, o profano e o imaginário são os ingredientes perfeitos para uma obra deliciosa. Vale a pena.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Livros: arte comercial ou comércio artístico?

Na semana passada, o Brontops, dos Escritores de Segunda (grupo no qual estou tentando seriamente participar, mas o tempo tem me pregado peças), mandou uma mensagem para o grupo sobre um texto que leu no blogue português De Rerum Mundi discutindo a prática da destruição de livros quando não consumidos para de certa forma aliviar os estoques das livrarias e distribuidoras. O autor do texto clama que esse é um verdadeiro absurdo, guiado pelo capitalismo e coisa que o valha. 
Agora: que fazer com a falta de espaço? Afinal, livros são objetos que ocupam um espaço considerável em prateleiras e seu encalhe pode gerar prejuízos, indesejáveis a um setor que tem um lucro, no Brasil, ainda prejudicado, pois o trabalho é muito e o retorno não tão grande, ou insuficiente para o tipo de trabalho que se faz. Comecei minha ainda breve carreira nas Letras atrás do balcão, ou melhor, de uma mesa da área de compras de uma grande livraria e pude presenciar negociações das mais ferrenhas quanto ao preço de capa, consignação etc. Então, que fazer com os livros, se com a crise as vendas caíram. A colega lusitana, que como eu vê o livro como gênero de primeira necessidade (e concordei com alguém que certa vez disse que deveria ser um dos itens da cesta básica), atém-se à visão romântica do mercado livreiro: obras de arte que não podem ser destruídas sem que se atente contra o patrimônio da humanidade
Nos comentários desse blogue diversas questões vieram à tona: desde a lebre levantada de "boa" ou "má" literatura, até mesquinharias e pequenezas. E não se chega a nenhum consenso, pois essa não é uma questão tão nova e acontece há muito. E há uma revolução acontecendo, com os audiobooks e os kindles da vida que vêm transformar a indústria do livro, para o bem ou para o mal (no Estadão desse domingo há um vislumbre do caos ou do paraíso). Ou seja, há discussões ainda mais pertinentes e às quais se deve mais fervor. Não que ela não tenha valor, pois também não quero no futuro meus livros no fundo de um estoque mofando nem sendo reciclados para se transformar em papel higiênico ou coisa que o valha. Mas o "fazer literário", diante de todas essas mudanças da modernidade, merece ainda mais e mais pensares. Que se doem os livros encalhados, que se vendam em saldões por aí, as soluções estão aí para ser tomadas e sugeridas. Com certeza, serão felizes os beneficiários desse belo descarte.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

Rebeldia húngara

Acabo de ler Rebeldes (Cia. das Letras, Trad. Paulo Schiller), de Sándor Márai (1900-1989), um dos poucos livros do autor húngaro traduzido direto do idioma original. Pode parecer frescura de tradutor, mas quem tem como ofício ou já se envolveu de alguma forma com ele sabe que tradução de tradução em geral dá problema, a não ser que a tradução tenha sido feita pelo autor ou sob a supervisão dele. Me interessei pelo autor ao ler uma entrevista da Fanny Abramovich no blog do Marcelo Maluf, no qual ela dizia ter lido As brasas, um dos livros mais famosos de Márai (mas traduzido a partir de uma versão italiana). Talvez um dia me aventure nele. 
Rebeldes tem como pano de fundo uma Hungria invadida pelos fantasmas da Primeira Grande Guerra, onde a ida para o front quase não se apresenta como opção, mas como obrigação para os húngaros da época. Márai consegue montar esse cenário com maestria, inclusive com os costumes e a decadência burguesa atrelada à guerra, como vi apenas feito por Thomas Mann em Os Budenbrooks (Nova Fronteira, Trad. de Herbert Caro), no qual a história da decadência da sociedade reflete-se diretamente na decadência da família Budenbrook. Também há um retrato da juventude, mas não a daquela época, mas uma juventude universal: período de descobertas e aventuras, sempre na contramão. No livro, quatro jovens (e mais um não tão jovem que se junta ao grupo) ingressam na adolescência e montam o que chamam de "bando", com a rebeldia característica dos jovens, ditando suas próprias regras e encarando os adultos como algozes. Tentam a todo o momento provar sua bravura e suas qualidades perante o grupo que muitas vezes contradizem os ditames sociais. A descoberta do erotismo, do amor e da amizade são concorrentes a outros achados menos nobres, como a traição, a inveja e a maldade. Bom livro, ótima tradução: eu recomendo!

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Rapidinhas (ou não tão rápidas)

  1. Hoje tem Noite dos Vampiros, no SESC Ipiranga. Após o lançamento de "Território V", pela Terracota Editora ontem, haverá uma conversa com alguns autores da coletânea, como Kizzy Ysatis (o organizador), Luiz Roberto Guedes, Luiz Bras, Flávia Muniz, Giulia Moon, com mediação do querido Marcelo Maluf. Das 20h00 às 22h00.
  2. O muito querido e sempre mencionado aqui Nelson de Oliveira deu uma entrevista bacana para o também querido Claudio Brites, da Terracota, no site Box Liberis.
  3. Estou no finzinho do livro Rebeldes, de Sándor Márai (Cia. das Letras, 218 p., Trad. Paulo Schiller) e estou bastante empolgado. Escreverei sobre ele em breve.
  4. Imaginação volta a conta gotas e eu prefiro que ela volte assim que não volte. Tudo caminhando lenta, mas continuamente e, acho eu, isso é o que importa. 
  5. Saudades dos amigos. Muitos não tenho visto, por desencontro besta, sabe? Quero voltar a fazer isso logo. 
  6. Ontem passei um tempo agradável com meu sobrinho de seis anos, brincamos bastante e conversamos também, comendo pizza e acessando sites legais para criança. Como eu também tenho saudades dele, não consigo nem medir. Serei um tio-padrinho mais presente daqui para a frente.
  7. Um grande ditador já fez o mesmo que o Serra há uns bons 60 anos: separou  pessoas que ele acha nocivas (no caso do Serra, os fumantes) do convívio ao qual elas estão habituadas. Nesse caso, não haverá câmara de gás, mas uma câmara de pressão e solidão. Senti isso na pele ontem, na hora do almoço. Nem vou entrar no mérito do quanto essa questão é delicada e foi tratada com arbitrariedade máxima pelo excelentíssimo senhor governador... 
  8. No domingo, Tertúlias: Tradutores, no SESC Pompéia. Estará lá neste fim de semana Leonardo Fróes, tradutor de William Faulkner, Malcolm Lowry e Jonathan Swift, dentre outros, para falar sobre sua tradução dos Contos de Virgínia Wolf. Vai ser bacanudo isso, hein? Jurei que seria nesse domingo, mas será no dia 13 de setembro, às 18h00. Fui lá de boboca...
  9. Estou escrevendo. Não para burro, mas o suficiente para gostar do ritmo no qual escrevo. Vou demorar dez anos para acabar e até lá vou precisar adaptar muitas coisas para não parecer antiquado. Mas um dia vai... 
  10. Só para arredondar: começo o inglês na próxima terça-feira. Depois de muito matutar, decidi investir mais um pouco na carreira tradutória fazendo (finalmente) um curso de inglês. Falo, escrevo, mas ainda falho muito. Então agora quero ficar afiadíssimo. Me aguardem...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Domingão recheado

Depois do almoção do dia dos pais vão acontecer dois eventos tchubirubis em São Paulo.
Um deles é o Stand-Up Literatura, na Livraria Martins Fontes da avenida Paulista, com o querido e sempre bem cotado aqui no Vermelho Carne, Nelson de Oliveira.

Em seguida, às 18h00, acontece no SESC Pompeia TERTÚLIAS: TRADUTORES, um encontro com tradutores literários do porte de Boris Schneiderman, Modesto Carone e outros. Começa com o tradutor das Mil e Uma Noites (Ed. Globo), Mamede Mustafa Jarouche e vai acontecer aos domingos, até o fim do ano.
Espero vocês lá.

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Um início

Tudo já está escrito, outro dia ouvi essa frase e me desesperei. Não há mais novidade, apenas aquela vontade de fazer algo novo, qualquer coisa que desperte a atenção preguiçosa movida a controle remoto. Não há mais genialidade, apenas repetições de coisas que já foram feitas ad nauseum. Ainda assim, escritores debruçam-se sobre  diversos temas e descobrem, desconsolados, que isso e aquilo também já foi dito, escarafunchado em algum outro livro. Teremos, em breve mesmo, mais escritores que leitores. Um mexicano disse isso, com razão. Para que tantos livros? Uma enxurrada por dia chegam às editoras, onde os senhores das letras enfastiados se refestelam em suas cadeiras de couro, decidindo qual será o próximo repeteco com ares de novidade que lançarão para encher as prateleiras das megalivrarias. E nós, pobres mortais, nos debatemos com nossa imaginação falha. A minha anda bem falha, não sei se por excesso ou falta de imagens, ideias, mensagens. Trabalho, muito trabalho. Guimarães Rosa e filosofia. Cobras. Tantos assuntos, poucos brilhos diante dos olhos, daqueles que trazem os textos em lampejos edulcorados. Estou numa fase reclamona, inconformada com o vazio. Uma sala branca sem móveis, sem cantos ou quadros, paredes frias da memória, uma luz fraquinha fluorescente batalha para me deixar enxergar a vastidão desses poucos centímetros quadrados de cérebro oco. Me vejo sentado no meio desse salão, com olhos fundos de insone. Tenho um livro nas mãos, um livro em branco, no qual busco uma palavra, uma letra, um início. 

Enquanto isso... o nada.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Difícil

Como anda difícil escrever. Nem por falta de tempo, esse tenho tido um pouco, mas por falta do quê. Época de bovinos fêmeas esquálidos entre meus neurônios gastos. E ainda com obrigações da viagem (fazer o quê, há de se pagar de alguma forma) e de casa e do trabalho castrador e de tudo mais. 

Daí também tem outra coisa: acho que nada vai ficar interessante aqui. Que meu leitor não vai gostar de meus novos escritos, que vai achar bobo ou brega. Se estou sendo cruel comigo mesmo, talvez. Só não tenho coragem e, quando encontro, o texto para pela metade. 

Acho que vou entrar para aqueles concursos de textos interminados (e intermináveis). Acho que uma editora francesa que promove. Quando chega no Brasil?
Poderia falar do livro que acabo de ler, que é bem interessante, mas a tradução ficou aquém: O fundamentalista relutante (Alfaguara, Trad. Vera Ribeiro), uma história entre tantas sobre o 11 de setembro. Mas do ponto de vista de alguém do Oriente Médio para alguém do Ocidente, o que torna interessante a longa conversa de Changez com seu interlocutor americano em plena Lahore, Paquistão. 


Mas nem sobre isso eu consigo falar. 


Um deserto. Assim classifico minha cabeça. 

Todas as vezes que me manifesto assim, com pesar sobre minha condição de fonte seca, começam a brotar coisas. Sándor Márai também deve ajudar nesse processo. E cursos e encontros com amigos criativos pra caralho. 

Bem, fica aqui o desabafo. 

terça-feira, 21 de julho de 2009

Inspiração e motivação

Engraçado como períodos de grande seca criativa se intercalam a períodos de dilúvios de ideias. Voltei da Alemanha bem atrapalhado com todas as impressões e agora sinto que essa vivência está se sedimentando na minha cabeça, tomando forma, deixando de ser onírica para ser real. Vejo e revejo as fotos sem cansar de ter as sensações da época: o frio de nosso inverno lembra demais a primavera alemã, só muda pelo céu que é sempre azulzinho na estação das flores. Tento me agarrar às lembranças para que elas não derretam tão depressa diante de meus olhos, nem que a impressão de que tudo foi mesmo um sonho chegue com cada vez mais força. Sei que será assim, que logo não acreditarei que tudo aquilo aconteceu, mas cada vez que vir as fotos de todos os dias maravilhosos que passei lá o coração baterá mais forte. E a imaginação voará de volta para lá, me trazendo histórias maravilhosas. Já começaram a surgir essas histórias, mas o destino delas será outro, não o blogue. Aguardem... e confiram.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Meirelles e a Poderosa

Ainda não consegui entender como Fernando Meirelles conseguiu colocar na "Poderosa" um programa tão bom como Som & Fúria. Arrisco a dizer que um dos melhores programas que vejo na TV aberta totalmente comercial em muito tempo, com elenco dando show, tanto as figurinhas tarimbadas na televisão (como Andréa Beltrão, Pepê Rangel, Dan Stubach e Regina Casé) quantos os feras de teatro (como a ótima Cecília Homem de Melo ou o sempre engraçado Wandi Doratiotto). O trabalho de Meirelles e de sua produtora, a O2 Filmes, sempre causa furor, porém Som & Fúria talvez não esteja surtindo o efeito IBOPE esperado: não ouço as pessoas comentarem o programa, uma adaptação da série canadense Slings & Arrows. Será culpa do horário ou do gosto brasileiro?
Quanto ao programa, uma só reclamação: curto demais. São 30 minutos de diversão garantida por dia, que durará infelizmente apenas 12 episódios. Será que a Poderosa tá querendo seguir os passos da HBO quando se trata de seriadinhos? Ou alguém lá dentro entendeu que há público para coisas bem-feitas? Esperemos mais, né?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Cidade Limpa (?)

(Vista do bairro do Morumbi)  
"Seja bem vindo a Rua Dom Paulo Pedrosa!
Este território foi esquecido pelo Poder Público e pela Polícia.
É território dominado por bandidos.
Prepare-se para ser a próxima vítima dos assaltantes de motocicleta.
Que Deus nos proteja, pois a Polícia não faz nada"

Esta é a mensagem que estava exposta em algumas faixas e que qualquer pessoa poderia ler assim que atravessava uma das ruas do bairro do Morumbi, zona sul de São Paulo. Hoje pela manhã essa mensagem virou notícia dos principais telejornais e gerou diversos comentários. Os moradores da região até agora não sabem dizer de quem partiu a iniciativa de criar e expor a mensagem em uma faixa, mas a aprovam.

O mais curioso de tudo isso é que nesse caso, a polícia interviu com bastante rapidez, agilidade e competência. Quando foram avisados sobre a faixa, partiram logo para o local, escoltaram a faixa e a retiraram o mais depressa possível. Mas é claro que as faixas só foram retiradas por conta da lei Cidade Limpa, que impede uso de faixas nas ruas...

Agora, eu me pergunto: por que não agem da mesma forma quando sabem de um sequestro? Por que não escoltam com a mesma rapidez e determinação a Cracolândia? E se isso acontece no Morumbi, imagine o que diriam os moradores dos bairros do Jardim Ângela, Capão Redondo ou Guaianazes? Só agem assim, com tanta autoridade, poder e garra quando acontece algo relacionado à lei Cidade Limpa? Talvez, afinal se a poluíção visual faz doer as vistas, imagine então várias faixas que tratem de um assunto real, mas que muita gente não quer nem saber.

Seria a colocação dessas faixas uma forma da população começar a agir para tentar mudar a situação? Será que isso resolveria algo? E a pressa em retirar as faixas da rua? Seria uma mais uma forma do Governo "abafar o caso", retirando essas faixas, pois o Palácio dos Bandeirantes - sede do Governo do Estado de São Paulo - fica no próprio bairro do Morumbi? Ou então uma medida do projeto Cidade Limpa, de nosso Excelentíssimo Prefeito Kassab, que visa por uma cidade sem poluição visual, mesmo que nesse caso isso sirva de alerta para toda a população?
E depois de tudo isso, alguma coisa vai mudar? Ou será que a única coisa que vai prevalecer será a lei Cidade Limpa?

Eis as questões!

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Sem choro

Na curta viagem que fiz a Belo Horizonte, devorei Leite Derramado, o último livro do mestre Chico Buarque. Talvez ainda não mestre da escrita, mas um mestre das palavras de qualquer forma. Temos um Chico bem diferente dos últimos livros, desde do engasgado Estorvo (1991), passando pelo "apagado" Benjamim (1995) e pelo celebrado Budapeste (2003 e que, em 2009, foi lançado em filme). Sem os experimentalismos dos livros anteriores e, aparentemente, com uma segurança maior na escrita e a conhecida ironia comedida, Chico traz à tona em Leite Derramado a questão da memória e da fantasia. Duzentos anos de um Brasil glamuroso e esquecido é retradado em toda a obra, num grande jogo literário de repetições, no qual Eulálio Assumpção conta sua história de luxo e decadência em seu leito de morte. Aos 100 anos, sofre em um hospital e sua única e verdadeira companhia é a perda da lucidez. Das altas rodas da sociedade carioca até os cafundós enfavelados, Chico destranca diversos fantasmas quatrocentões e revolve um passado que nos pertence. Lançamento festejado e comentado em todas as rodas, Leite Derramado (como disse a amiga Nanete, com a qual concordo, uma imagem forte e feliz do livro) vale a pena.