O matador de tempo II

O tempo que se passa rindo é um tempo que se passa com os deuses.
Provérbio chinês
- Álvaro Nunes de Albuquerque Lima Vasconcelos! Que trajes são esses?

Senti neste momento regelarem todos os ossos que eu conhecia das aulas de biologia e alguns outros que eu não conhecia. A ira da minha mamãe crescia na proporção dos meus sobrenomes postos um atrás do outro, como numa fila vendada em direção ao paredão. Álvaro é meu nome e quando assim chamado sabia que tudo estava normal. Mas quando mamãe chegava no Vasconcelos, de certo nada de agradável viria em seguida.

- Você conhece esse menino de rua - perguntou o estranho tão estranho quanto o tempo que aos poucos nublava.

- Menino de rua? Esse é meu filho e ele terá que me explicar direitinho esses... essas... ai, esses trapos que ele veste e essa caixa de engraxate.

Olhei bem para os olhos da minha mãe, desafiador. Na verdade, estava cagando de medo de qualquer reação, então tentava ganhar tempo com aquele olhar.

- Anda, comece a falar Álvaro, ou eu vou ter que ser enérgica com você.

Um lampejo salvador me acometeu de pronto: quem era aquele homem? Essa pergunta foi a primeira coisa que me veio à mente antes de qualquer coisa passar pela cabeça. Minha mãe deveria estar no consultório naquele momento, que era no Paraíso. No entanto, estava almoçando com um homem estranho e pouco tempo antes eu a vi sorrir, satisfeita, olhando para ele com olhos de colegial admirando o namorado. Algo me cheirava mal e assim:

- Respondo agora mesmo o que estou fazendo... se você me explicar quem é esse daí.
- E eu te devo satisfações, moleque insolente? Onde já se viu...
- Para mim não... mas papai vai adorar saber...
- Álvaro! Que você está pensando da sua mãe...
- Nada, eu apenas queria saber se você gostaria de negociar comigo...
- Negociar? Que história é esse de...
- Exatamente, mama. Negociar: você me deixa em paz, eu paro de engraxar e eu fico de bico calado sobre o moço que está ao seu lado, segurando suas coisas, com a mão no seu ombro. Papai não vai gostar nada disso...
- Eh, ehrr... tudo bem, não quero confusão com seu pai. Mas saiba que o Júlio... - começou minha mãe, num gaguejo desconcertado.
- Prazer Júlio, sou Álvaro, filho da doutora Sueli. Você é um paciente dela?
- Não, bem, na verdade... - disse o homem, branco feito cera.
- Bem mamãe, agora vou para casa, pois já ganhei meu dinheirinho do dia. Vou sentir saudades dessa vida. A gente se vê em casa.
- Álvaro, volte aqui!

E desapareci entre as compridas pernas engravatadas da rua da Quitanda. Corri pela praça do Patriarca, que na época ainda era ponto final de muitos ônibus, feliz da vida pela minha primeira negociação séria. Desde então, botei uma coisa na cabeça: seguiria os passos do meu pai, o grande advogado criminalista Rômulo Vasconcelos.

(continua...)