Carnafilmes


Acho que vou mudar o nome do blog para "Cinelândia" ou algo do tipo. Estou numa fase filmística, estou curtindo essa fase. Talvez ela passe, talvez não. E enquanto não passa, vou comentar quatro filmes que vi neste Carnaval. Não, não fiquei em casa trancado vendo filmes, fui ao parque de diversões Hopi Hari com minha família, comemorar o aniversário do meu sobrinho, pulei Carnaval com amigos em uma danceteria e saí para almoçar, jantar, tomar café... e tive tempo de trabalhar um pouquinho e assistir a três filmes brasileiros e um estrangeiro, que comento a seguir:

Jogo Subterrâneo (2005), a partir de um roteiro adaptado do conto "Manuscrito Encontrato em um Bolso", do autor argentino Julio Cortázar pelo diretor Roberto Gervitz e por Jorge Durán, traz a história de Martín (Felipe Camargo), pianista de um bar, que lança mão de um jogo criado por ele para encontrar a mulher de sua vida: entra em estações do metrô e tenta encontrar pistas da mulheres que ele próprio nomeia enquanto "paquera" dentro dos vagões. Entre muitos desencontros ele se envolve com Tânia (Daniela Escobar), tatuadora e mãe de Victoria, uma menina autista, com Laura (Júlia Lemertz), escritora cega que busca em Martín um personagem para uma de suas histórias e Ana (Maria Luísa Mendonça), mulher misteriosa que guarda muitos segredos e revelações.
Quem mora em São Paulo se divertirá em várias cenas. Grande parte do filme se passa em estações do metrô paulistano, o que custou à produção um trabalho imenso de logística, em parceria com a Cia. do Metropolitano de São Paulo, que permitiu que as gravações fossem realizadas entre 0h00 e 4h30 da manhã. Porém, apesar do esforço dos produtores de dar coerência às entradas e saídas do metrô, as ligações ficaram hilárias (para quem conhece bem a linha): das escadas da Estação Vila Madalena, na Zona Oeste, o protagonista sai diretamente na Praça da República (Zona Central) e em seguida, quando volta ao metrô, já está na linha Lilás (na época, em fase de finalização de obras). Até a linha amarela, que ainda não foi inaugurada, figura como cenário para a maluquice de Martíns.
Fora essa característica, o filme mostra várias facetas da carência sofrida pelas pessoas das grandes metrópoles, com o medo da rejeição, da paixão não correspondida e da pessoa errada.
Se você tem estômago fraco ou é moralista demais, não assista Amarelo Manga (2002). Esse festejado filme de Cláudio Assis,o primeiro do diretor, resume a condição humana e o brasileiro em 130 minutos desse mosaico bem arquitetado no Centro Velho do Recife. Os personagens principais são o sexo, a perversão e a fome, três elementos que são banhados por uma luz amarelenta, além dos tons de amarelo e vermelho que preenchem a tela discretamente. Na história, Lígia (Leona Cavalli) é a dona de um bar no qual ela também mora e de onde ela mais quer é fugir. Dunga (Matheus Nachtergalle), gay assumido, trabalha no Hotel Texas como cozinheiro e faxineiro, auxiliando o Seu Bianor, o dono do hotel, e é apaixonado por Wellington Kanibal (Chico Diaz), açougueiro casado com Kika (Dira Paes), evangélica fervorosa. Apesar de casado, Kanibal tem uma amante e mal sabe ele que destino ela lhe reserva. Isaac (Jonas Bloch), morador do Hotel Texas, tem uma estranha perversão e isso o leva, junto ao funcionário do IML Rabecão ao bar de Lígia, e ao ver a loira ele enlouquece e determina: ela vai ser minha. Nesa roda-viva, os personagens se mesclam à realidade recifense e brasileira, em diálogos cortantes, com o humor negro sendo destilado em cada palavra. E para quem pensa que esse é um filme apenas escatológico, engana-se redondamente: as pequenas histórias dessa gente simples dão muito o que pensar. Para se ter uma idéia, num ponto do filme, um transeunte com a camisa do Ibis (considerado o pior time de futebol do mundo) vira para Kika e atira sem piedade a seguinte frase: "O pudor é a forma mais inteligente de perversão". Dito isso, já dá para ter uma idéia do que vem pela frente. Vale muito a pena!
O Perfume, do diretor Tom Tykwer (de Corra, Lola, Corra e A princesa e o guerreiro) faz uma adaptação bastante bonita do best-seller dos anos 80 escrito pelo alemão Patrick Süsskind. Não farei nem um texto sobre o filme, pois já falei do livro no post Odores, de outubro do ano passado. Como sempre, o filme está muito aquém do livro, mas vale a pena pela direção sempre competente de Tykwer. Efeitos especiais muito bons, Dustin Hoffman está bastante divertido e a essência do livro ao menos foi preservada. Apenas um velho defeito dos filmes que buscam a todo o custo uma carreira internacional: ele é todo falado em inglês, apesar do filme se passar todo na França antiga. Prestem atenção à cena da orgia, é incrível!
E para terminar, O Outro Lado da Rua (2004), de Marco Bernstein, traz a história de Regina (Fernanda Montenegro), uma senhora que atua como espiã da polícia sob o codinome Branca de Neve. Sozinha no mundo, sem nada para fazer, ocupa-se como pseudoheroína de Copacabana. Numa noite, com seu binóculo bisbilhoteiro, presencia um suposto assassinato por Camargo (Raul Cortez), que a deixa bastante perturbada. Dessa forma, ela se envolve com o suspeito para tentar entregá-lo à polícia, porém acaba deixando o coração falar mais alto. Uma bela reflexão sobre a velhice e o vazio dessa época da vida: até onde podemos chegar quando o fim se aproxima? Show de interpretação de Montenegro e Cortez.